Throwback Review: os dois lados da moeda do retorno de Britney Spears com o 'Blackout'


Logo após o lançamento do "In The Zone", o quarto álbum de estúdio de Britney Spears, que ajudou de forma direta a consolidar a cantora no mercado, rendendo seu único Grammy, de "Melhor Canção Dance" para "Toxic", Britney viveu aquele momento que todo mundo está careca de saber. Super exposta pela mídia, a cantora acabou caindo numa clínica de reabilitação onde protagonizou momentos icônicos como a briga do guarda-chuva e o raspar do seu cabelo.

No momento em que a Princesa do Pop afunda pessoalmente após um casamento fracassado, a internação em clínica de reabilitação e fotos tiradas em público sem calcinha, seu próximo passo na carreira tinha todos os holofotes à disposição, para o bem ou para o mal. Sua imagem estava desgastada e ela precisaria se reinventar para poder ganhar os braços do público novamente, ainda perplexo ao lembrar que sonho americano de "...Baby One More Time" havia se tornado aquilo.

Pois bem, assim foi o parto do "Blackout". Era o tudo ou nada. O primeiro passo então foi o VMA de 2007, onde Britney faria seu retorno triunfal com o lead single do material numa das maiores premiações do mundo como performance de abertura. Era o cenário perfeito. Só que... todo mundo sabe o que aconteceu. A performance foi um fiasco, mundialmente massacrada pelos críticos e abismou o mundo. Foi com ela, inclusive, que nasceu o vídeo "Leave Britney Alone" do Chris Crocker.



Essa foi a única performance de divulgação do "Blackout", que nem turnê ganhou. O álbum também quebrou a sequência de #1 na Billboard 200, estreando em #2. Tudo conspirava para que o álbum fosse um desastre, porém, nem mesmo todos esses fatores foram capaz de diminuir o material, como veremos a seguir.

1. GIMME MORE
It's Britney, bitch! Se Lady Gaga possui o "I'm free bitch, baby" como "frase tema", Britney possui o primeiro verso de "Gimme More". O lead single do "Blackout" é uma mistura de dance-pop com funk e electro, vocais robóticos e batidas insinuantes que convidam qualquer um a se jogar num poledance. O refrão grudento na maior potência possível, intercalado com o vocal masculino (de Danja, produtor da faixa) que geme "mooooore" ao fundo é uma verdadeira pérola. Você pode gostar ou não de Britney, mas é inegável: você já se jogou com esse hino. "The legendary Miss Britney Spears".



2. PIECE OF ME
Britney possui diversos singles memoráveis que a ajudaram a ser quem ela é hoje, mas é "Piece of Me" a detentora do cargo que ser a música mais Britney. "Eu sou a Miss Sonho Americano desde os 17 anos. Eles ainda vão colocar fotos da minha bunda na revista" canta Brit da forma mais cínica possível, num verdadeiro desabafo sobre o circo midiático que a parasita desde os primórdios. Perde alguns pontos por não ser escrita pela própria cantora, mas nada que comprometa a dimensão que essa música tem até hoje, com o clipe vencedor do VMA de "Vídeo do Ano" em 2008. Ah, e tem backing vocals da Robyn!



3. RADAR
A faixa que saiu sendo jogada de um lado pro outro, indo parar como faixa bônus (e single) do "Circus", "Radar" é uma canção esperta e divertida com efeitos sonoros de radar pontuando-a do começo ao fim. Costurada de forma exemplar (note como o vocal principal é intercalado com o backing vocal no refrão) e com uma letra sexy e certeira ("Eu estou checando tanto, me pergunto se você sabe que está no meu radar"), foi ótimo ter a faixa reciclada para virar single mesmo depois de certo tempo.



4. BREAK THE ICE
"Radar" seria o terceiro single do "Blackout" logo depois de "Piece of Me", porém Britney abriu uma enquete em seu site para os fãs escolherem sua favorita e deu "Break The Ice". Amém. A faixa é a mais matadora de todo o álbum, um hino pós-apocalíptico cheio de sintetizadores épicos que ditam o tom antológico. Futurista tanto na sua concepção quanto no seu clipe, o refrão com gosto de ferro é de arrepiar: "Baby I can make you feel HOT! HOT! HOT! HOT!". Os backing vocals no refrão são de Keri Hilson, quase se tornando um feat, e o "I like this part" é uma referência ao "I love this part" de Janet Jackson em "Nasty".



5. HEAVEN ON EARTH
Segundo Britney, essa é sua faixa favorita do "Blackout". Engraçado, porque é a nossa menos favorita rs. "Heaven On Earth" é uma canção de amor euro disco meio new wave, inspirada em "I Feel Love" da Dona Summers com a letra água com açúcar. Tem uns sintetizadores legais que combinam com o piano do fundo, mas são tantos backing vocals por baixo do vocal principal - e de forma dessincronizada - que torna a faixa uma bagunça. Não chega a ser ruim, é apenas uma canção menor.

6. GET NAKED (I GOT A PLAN)
A-l-e-r-t-a-d-e-h-i-n-o. "Get Naked (I Got A Plan)" é uma música abertamente sobre sexo ("O que eu preciso fazer pra que você queira o meu corpo? São 3:15h e pronta pra sair da festa"), com os vocais de Britney e Danja praticamente se roçando em cima duma cama. O refrão - perfeito - é todo dele, que tem os vocais desconstruídos e decompostos para soarem como um longo gemido, com Britney ao fundo suspirando, gemendo e dando gritinhos, e nos versos sussurrando "Meu corpo está chamando por você, garoto mau". Futurista, robótica, sexy e quente, "Get Naked (I Got A Plan)" é uma ode à safadeza. "Take it off!".

7. FREAKSHOW
Antes mesmo do dubstep virar moda e ditar tendência nessa década, "Freakshow" já trazia tais elementos. A faixa, co-composita por Britney, tem auto-tune e efeitos sonoros até dizer chega, com partes onde os vocais da cantora foram distorcidos para ela soar masculina, algo que Madonna fez em "Music", por exemplo. Palmas ao fundo ("Faça-os bater palmas quando dançamos") dão ritmo à uma canção, rápida e ágil, "Freakshow" é um show de horrores que pagaríamos para ver.

8. TOY SOLDIER
Batidas frenéticas, refrão forte (apesar de enjoativo), som de tambores (eletrônicos), e pinta R&B que lembra Destiny's Child, "Toy Soldier" não é uma das grandes faixas do álbum, mas faz bem seu papel de não deixar o barco cair no marasmo (algo que "Heaven On Earth" fez"), já que é grudenta e modificadíssima - o pós refrão é quase inaudível de tanta distorção. O instrumental produzido por Bloodshy & Avant é o que há de melhor aqui.

9. HOT AS ICE
Com uma pegadinha rock, "Hot As Ice" já começa dizendo a que veio. Simples, curta e direta, esse pequeno hino com backing vocals de T-Pain dando o tom R&B à canção poderia ter virado single, já que tem tudo o que um hit precisa: letra marcante, vocais provocativos, instrumental poderosos e refrão grudento. Mais uma produção incrível de Danja. "Porque eu sou fria como o fogo, quente como gelo".

10. OOH OOH BABY
"Ooh Ooh Baby" já começa com uma guitarra flamenca. Isso é sinal de que você vai se jogar. A "La Isla Bonita" versão Britney é uma canção mais lenta que não deve em absolutamente nada para as bate-cabelísticas do álbum. Perfeita para um strip-tease (fica a dica), "Ooh Ooh Baby" é ensolarada, sensual, viciante e com um dos melhores refrões de todo o álbum, safadíssimo ("Ooh ooh baby, você me toca e eu vivo. Eu posso senti-lo nos meus lábios, posso senti-lo profundamente"). O pós-refrão com o "Você me preenche" quase num gemido então, sensacional.

11. PERFECT LOVER
Começa parecendo alguma produção do Timbaland e mal piscamos já estamos no refrão depois de versos super rápidos que Britney canta quase sem respirar e pá!, caímos no pós-refrão feito pelos deuses para um lapdance (fica mais uma dica). Em "Perfect Lover" Britney faz sexo com nossos ouvidos com as batidas meio dança do ventre, e poderíamos ficar ali o dia todo. "Toda vez que você me toca lá você me deixa tão quente", eita. Música maravilhosa.

12. WHY SHOULD I BE SAD
Escrita e produzida pelo Pharrell, é o mais próximo que o "Blackout" se aproximou de uma balada. Vindo por último, nos remete à construção estrutural do "Confessions On A Dance Floor" da Madonna, que ordenou o álbum da mais rápida para a mais lenta. Bem R&B e meio hip-hop, a faixa é estranhamente coesa com o álbum, apesar de tão mais lenta que o resto da tracklist. Dirigida para o ex-marido da cantora, Kevin Federline, Britney canta "É hora de eu seguir adiante, é hora de eu prosseguir, estou cansada de cantar músicas tristes", e é a definição perfeita de todo o "Blackout".


RESUMINDO: Britney Spears veio vestida para matar com o "Blackout": músicas grudentas, cheias de efeitos, ótimas produções e diretas ao ponto: sexo, amor, paixão, tudo sem pudores e recheada de confiança, contrariando aqueles que achavam que sua estima estaria destruída após críticas tão pesadas. Fazendo um álbum em resposta à mídia (abri-lo ao som do sonoro "It's Britney, bitch" é só um alerta: vocês sabem com quem estão lidando), é realmente uma pena ver algo tão incrível sem a devida divulgação (foi o primeiro álbum da cantora a não receber divulgação pesada), entretanto, não é de divulgação que vive um álbum, é de legado, e o legado do "Blackout", tanto para a própria cantora, que jamais viria a fazer um álbum tão bom, quanto pro mundo pop, é enorme. No próximo dia 26 o "Blackout" completa sete anos e podemos afirmar sem medo: se ele fosse lançado hoje soaria atual, fresh e seria um dos melhores álbuns do ano. Não, o "Blackout" não é perfeito, tem sim auto-tune em demasia e, apesar de a cantora ser creditada como "produtora executiva", é um álbum completamente feito por seus produtores (perceba que músicas sobre a vida de Britney foram escritas por outras pessoas), mas nada nem ninguém é capaz de subjugar o poder dessas doze faixas, que juntas formam um capítulo concreto da grande bíblia do pop.