Throwback Review: Rihanna abre as portas do seu hospício particular com o pesado 'Rated R'


É até engraçado que a review do "Rated R" venha logo depois da review pro "Blackout" da Britney Spears. Engraçado pois os álbuns possuem inúmeros pontos em comum. Não em termos de sonoridade, mas de conceito e concepção. Ambos vieram depois de momentos bastante conturbados na vida das duas. Em 08 de fevereiro de 2009, Rihanna iria performar no 51º Grammy, porém a apresentação foi cancelada. O motivo: a cantora teria sido agredida pelo (então) namorado Chris Brown.

Assim como o surto de Britney, o evento marcou a carreira da barbadiana. Seu próximo álbum então deixaria de lado toda a vertente iluminada que estávamos acostumados vindo da cantora para dar vez e voz para seu lado mais sombrio. Moicano loiro, visual pegado, dark e sadomasoquista era o que ela apresentou ao público com o "Rated R", seu quarto álbum. Tal conceito, estampado no encarte e no título (algo similar a "Proibido para menores"), foi extrapolado para suas músicas, como veremos a seguir.

1. MAD HOUSE
"Senhoras e senhores, para aqueles que se assustam facilmente, sugerimos que vá embora agora. Para aqueles que pensam que podem seguir adiante, nós dizemos: bem-vindo ao hospício". O álbum é aberto com essa intro pesada, obscura e macabra. O comecinho lembra "Thriller" do Michael Jackson, até cair no instrumental digno de filme de terror onde Rihanna nos convida a entrar no seu hospício particular.

2. WAIT YOUR TURN
"A espera acabou". "Wait Your Turn" é aquele single que existiu mas quase ninguém lembra. Fez barulho quase nenhum no mundo, porém é uma faixa elementar no álbum. Batidão, efeitos sonoros e vocais fortes, brinca com o hip hop incrível levemente apoiado em dubstep. Pode ser perdida no extenso catálogo de singles da cantora, mas é uma faixa muito boa.



3. HARD (FEAT. JEEZY)
Continuando a vibe pesada do álbum, "Hard" é uma grande música que mescla diversos estilos, gêneros e instrumentos - é meio chocante como tudo se encaixa. É hip hop, R&B, tem guitarra, trompete militar e um piano que ainda não sabemos como deu certo no meio de tanto barulho e peso. Não só deu certo como é ele que dá o ritmo da faixa. "Esse é o reino da Rihanna", canta ela como se chamasse seus súditos (nós) a cantar em plenos pulmões esse hino egocêntrico onde ela canta "Eu sou tão difícil" e "Eu mando aqui, recebo carta de 27 milhões de fãs". O vozerão de Jeezy completa o pacote agressivo da canção.



4. STUPID IN LOVE
Pode parecer (e muita gente acha) que é uma indireta de Rihanna para seu ex quando ela entoa "Não entendo, sangue em suas mãos e você ainda insiste em tentar repetidamente me dizer mentiras", porém Ne-Yo, co-compositor da canção, afirma que ela foi escrita antes da agressão e a chama de "premonição". Também pudera. A primeira balada do álbum quebra um pouco a linha adotada no início, mas sem destoar, porém aqui temos outro ponto em comum com o "Blackout": é uma música sobre Rihanna ("Então foi isso que eu fiz, embora a Katy tenha me falado que isso não seria nada além de uma perda de tempo" referindo-se à sua amizade com Katy Perry) que não foi escrita pela intérprete. Deixar que fabriquem uma música sobre você mesma é incongruente.

5. ROCKSTAR 101 (FEAT. SLASH)
Trazendo o lado dark do álbum, "Rockstar 101" é um hop hop pesado onde Rihanna mais uma vez se auto-afirma. O single, que não fez o sucesso que merecia, tem guitarra de Slash no pós-refrão para terminar de matar. Rendendo um som diferente, instigante, intrigante e empolgante, a canção é uma das melhores do álbum, com seus versos repetitivos e grudentos ("Oh baby I'm a...") e pose de rockstar sem tanto rock, é verdade.



6. RUSSIAN ROULETTE
O lead-single do "Rated R" é "Russian Roulette", uma faixa que pegou a todos de surpresa no lançamento. Fugindo da leveza de "Umbrella" e outros singles do "Good Girl Gone Bad", aparecia uma Rihanna enrolada em arme farpado na capa do single e uma canção iniciada com um melancólico solo de guitarra e o barulho de uma roleta russa. Cheia de elementos mórbidos, assombrados e violentos, a melodia cria um hino tenso de auto-destruição onde ouvimos um lamentoso "Você pode ver o meu coração batendo, dá para ver através do meu peito". A bateria completa fazendo o som de batidas do coração, terminando com um fatídico tiro. "So just pull the trigger". Lindíssima.



7. FIRE BOMB
Tem guitarra, tem peso, tem boa produção, tem bons vocais, mas a melodia de "Fire Bomb" é completamente sem graça. Os versos de Rihanna conseguem manter a faixa num nível digno, porém a construção do todo é clichê e sem atrativos. Parece uma balada da Miley Cyrus na fase Hannah Montana com mais guitarra. O tema é o mesmo: amor destrutivo.

8. RUDE BOY
Está aqui a faixa mais contraditória de todo o "Rated R". Sua produção, letra, melodia e todo o resto combinam em absolutamente NADA com o conceito do álbum. Parece um carrinho de sorvete estacionando ao lado de um velório. Até o clipe, coloridão, é um corpo estranho na videografia vigente. Porém "Rude Boy" é uma dancehall avassaladoramente viciante, comercial, chiclete, um hit excepcional que tem a marca de Rihanna durante todos os segundos. Com letra fácil, rápida e pontual, a faixa foi feita com função de hitar mesmo, mas isso, e o já comentado contraste, não diminui a qualidade farofística de "Rude Boy".



9. PHOTOGRAPHS (FEAT. WILL.I.AM)
Uma faixa bem subestimada na carreira de Rihanna. "Photographs" é a balada mais perfeita do álbum, ficando atrás só de "Russian Roulette". Melódica, lenta, calma e suave, esse pequeno hino é o arfar da cantora no meio de tanta obscuridade da tracklist. A produção de will.i.am é super bem dosada, e seus versos trazem algo mais eletrônico que casam bem com o todo. Uma ótima canção.

10. G4L
Voltando para a temática sonora do álbum, "G4L" é Rihanna se assumindo vidaloka e mulher de malandro. Urban conceitual antes mesmo do urban ser conceitual, essa é, talvez, a faixa mais pesada do álbum. Com elementos de dubstep, os vocais encorpados da cantora são arrastados e bem truta ("Eu lambo a arma quando termino, porque sei que a vingança é doce"). Foi com essa faixa, inclusive, que surgiu o nome da sua fanbase: "We're an army. Better yet, a navy".

11. TE AMO
Assim como "Rude Boy", "Te Amo" é uma canção que não se encaixa em nada no álbum. E assim como "Rude Boy", "Te Amo" é uma canção incrível. Hit absoluto aqui no Brasil antes mesmo de a faixa ser lançada (uma demo vazou e todo mundo amou), "Te Amo" é bem latina, com seus tambores e acorde principal inesquecíveis, praticamente nos obrigando a cair na pista. "I said 'te amo', wish somebody tell me what she said. Don't it mean 'I love you'? Think it means I love you'".


12. COLD CASE LOVE
Co-composta por Justin Timberlake, "Cold Case Love" pode ser definida em uma palavra: chata. Não acrescenta em quase nada no todo além do tema, é demasiadamente lenta e tenta soar lírica com seu piano e violinos, porém não causam o efeito de "Photographs", "Russian Roulette" e "Stupid In Love". Não chegou na metade e já queremos pulá-la (e ainda tem mais de seis minutos). Próxima.

13. THE LAST SONG
Uma versão um pouco melhorada de "Cold Case Love", com uma guitarra até legal - o solo perto do final é ótimo - e vocais mais fortes, mas ainda assim sem brilho, principalmente comparada com outras grandes faixas do álbum. Encerra o material deixando uma impressão morna.


RESUMINDO: Na capa do "Rated R" a barbadiana segura o lado direito do rosto. Quem sabe o que aconteceu vê que não é por acaso. O primeiro grande disco de Rihanna é pautado naquele velho ditado: "há males que vem para o bem". Não que ela precisasse ter passado pelo transtorno que passou, mas já que aconteceu, vamos tentar tirar algum proveito disso (algo que Adele atualmente faz muito bem com suas desilusões amorosas, só para ilustrar). O amadurecimento musical da cantora pode até ter lapsos no decorrer da tracklist, porém foi uma guinada inesperada e super bem-vinda, que começava a transformar Rihanna num verdadeiro camaleão de estilos e visuais. "Rated R", particularmente, não é o melhor álbum da diva, entretanto é algo sólido na música, na moda, no gênero e na própria artista que Rihanna é. Mas alguém mais parou para notar que ditamos um álbum "dark" como "amadurecido"? Talvez Katy Perry aprenda o macete para o próximo.